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A epidemia da obesidade


De cada dez brasileiros, quatro pesam mais do que seria indicado para sua altura, sendo que um deles é obeso, ou seja, está pelo menos 15% acima do peso normal. Diversas ações promovidas na UNESP buscam prevenir, combater e compreender melhor as causas desse fenômeno do mundo moderno.

 

O Brasil está se tornando um país de obesos. Dados colhidos em 2002 e 2003 pelo IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) e divulgados em dezembro passado revelam que 4 em cada 10 brasileiros com 20 anos ou mais estava com sobrepeso, ou seja, com alguns quilos a mais do que seria normal para sua altura. E que 9% da população era obesa, ou seja, estava pelo menos 15% acima do peso ideal. O levantamento também constatou que apenas 4% dos pesquisados apresentava-se abaixo do peso.

Médicos e especialistas da UNESP alertam para o aumento, nos próximos anos, de moléstias relacionadas à obesidade, como a hipertensão arterial, diabetes do tipo 2 e doenças arteriais coronarianas, além de vários tipos de câncer. Diante desse desafio, eles buscam alternativas de emagrecimento que garantam qualidade de vida.

“Nos últimos 30 anos, a obesidade duplicou entre os adultos e triplicou entre as crianças e adolescentes e, mesmo no Nordeste brasileiro, o excesso de peso supera o crescimento da desnutrição”, analisa o nutricionista Roberto Burini, coordenador do Centro de Metabolismo em Exercício e Nutrição (CeMENutri) da Faculdade de Medicina (FM), campus de Botucatu. “A pouca ingestão de alimentos à base de fibras, como cereais, frutas e hortaliças, e o aumento do consumo de gorduras e açúcar, associado à demanda cada vez menor de esforço físico, são as principais causas do crescimento dessa epidemia no País.”

No CeMENutri, a prevenção e o combate à obesidade baseiam-se na mudança de hábitos alimentares e estilo de vida. Desde 1991, cerca de 1.200 pessoas já passaram por programas de reeducação alimentar, atividades físicas e avaliações médicas. Após um período de seis meses, 14% dos pré-obesos normalizaram o peso, 20% dos obesos passaram por uma nova reclassificação, 24% reduziram o índice de gordura corporal e 7%, da abdominal. “Conseguimos ainda diminuir os principais fatores que levam à morte de obesos, como os índices de colesterol bom (HDL) e ruim (LDL) e triglicérides (gordura)”, acrescenta Burini.

 

Qualidade de vida

As iniciativas para enfrentar os transtornos da gordura excessiva, na UNESP, envolvem geralmente um trabalho multidisciplinar. No Ambulatório de Obesidade do Hospital de Clínicas, em Botucatu, pacientes com sobrepeso e obesos recebem orientações sobre hábitos alimentares e estilo de vida com endocrinologistas, enfermeiros e psicólogos. Desde 2001, 6 mil pacientes passaram pelo tratamento, que dura nove meses. Cerca de 70% deles atingiram o peso ideal ou perderam pelo menos 10% do que pesavam inicialmente. “Nos casos mais graves, é associada uma medicação específica, porque cerca de 80% dos pacientes atendidos aqui têm distúrbios de ansiedade e de compulsão alimentar”, acrescenta a endocrinologista Célia Nogueira, docente da FM e chefe do serviço.

Já os obesos mórbidos, indivíduos com 45% acima do peso normal, são atendidos em um ambulatório especial. Atualmente, cerca de 200 pacientes passam por dieta rígida de restrição alimentar e orientação psicológica como preparação para a cirurgia de redução de estômago. “Alguns conseguem emagrecer a ponto de até mesmo escapar da cirurgia”, comemora Adriana Haddad, endocrinologista que trabalha no ambulatório. Mas o grande desafio tem sido o de diminuir a compulsão alimentar por meio de sessões de terapia individual e em grupo. “Sem esse trabalho, mesmo depois de operados, eles poderão trocar a compulsão alimentar por jogos e sexo”, explica.

O Instituto de Biociências (IB), do campus da UNESP de Rio Claro, é outro local em que o combate à obesidade integra fatores físicos e psíquicos. Lá, um programa de orientação holística com 25 mulheres obesas, baseado em sessões de terapia, massagens, atividades físicas e yoga, focou o chamado distúrbio de imagem, que afeta tanto pessoas obesas como anoréxicas, ou seja, que não têm apetite. “Nesse tipo de distúrbio, a imagem corporal que elas têm de si mesmas não corresponde à real, ou seja, mesmo gordas elas se vêem magras”, explica a psicóloga Silvia Marina Anaruma, docente do IB. “Quando percebem que estão gordas, ficam frustradas, sentem-se rejeitadas e voltam a comer compulsivamente.”.

Em seis meses, as participantes emagreceram e melhoraram em itens como pressão arterial, colesterol e gordura no sangue. “Visamos não apenas a redução de peso, mas modificar a pessoa como um todo, para que ela possa ser mais feliz e repensar sua forma de vida”, acrescenta Silvia.

A influência dos aspectos psicológicos na perda de peso também foi observada por Luiz Carlos Giarola, médico e professor da FM, num programa de emagrecimento com 32 mulheres obesas no Ambulatório de Nutrição do Centro de Saúde Escola, em Botucatu, ao longo de seis meses. “Além da redução de peso, gordura e fatores de risco de morte provocados pela obesidade, constatamos avanços nos aspectos físicos, mentais e de bem-estar, o que demonstrou que a melhora da qualidade de vida é útil para a continuidade do tratamento”, afirma. A pesquisa foi resultado da tese de doutorado de Giarola, defendida na FM.

Sem “milagres”

Os especialistas alertam contra as fórmulas “mágicas” de perda de peso, que, na maioria dos casos, proporcionam resultados temporários. Para Célia Nogueira, dietas à base de sopas e líquidos, sem a mudança efetiva no hábito alimentar e no sedentarismo, resultam no chamado efeito “sanfona”, em que a pessoa volta a engordar assim que enjoa desse alimento.

O hormônio tireoidiano, utilizado indevidamente para o emagrecimento rápido, é também condenado em um estudo com ratos induzidos à obesidade. “Confirmamos que o seu efeito emagrecedor se dá pela redução da massa muscular e não da gordura, o que pode gerar enfraquecimento da musculatura e provocar lesões de difícil tratamento”, diz Renata Luvizotto, nutricionista, mestranda da FM e autora da pesquisa. “Por outro lado, constatamos pela primeira vez na literatura que esse hormônio diminui o apetite, pois modula os níveis da leptina, proteína responsável por avisar o cérebro que o corpo está saciado.”

Custos da obesidade

Além do bem-estar que proporciona, emagrecer ajuda o orçamento doméstico dos pacientes. Baseada no acompanhamento das despesas médicas de 31 hipertensos obesos de baixa renda, uma pesquisa de iniciação científica desenvolvida por Lívia Rolin, aluna de Educação Física da Faculdade de Ciências da UNESP de Bauru, constatou que os gastos com consultas caíram 28% depois que eles adotaram uma rotina regular de exercícios físicos. Já as despesas com exames clínicos e laboratoriais diminuíram 45% e, com medicamentos, 25%. “Na média, houve uma economia de 36% nesses gastos em um ano”, observa Henrique Luiz Monteiro, docente da Faculdade de Ciências (FC) e orientador da pesquisa.

Já Mariana Menin, aluna de Desenho Industrial da Faculdade de Arquitetura, Artes e Comunicação (Faac), campus de Bauru, preocupou-se com o conforto dos “gordinhos” no transporte e em locais públicos. Um projeto de iniciação científica constatou que catracas, poltronas de cinemas, ônibus e aviões estão fora das medidas adequadas para os obesos. “Observamos uma certa discriminação das pessoas que sofrem com esse problema”, comenta José Carlos Plácido da Silva que, com o docente Luís Carlos Paschoarelli, orientou o trabalho.

Mariana mediu o peso, a altura e a largura do quadril de 90 pessoas obesas e estabeleceu medidas que lhes proporcionariam maior conforto em aviões, cinemas e escritórios. “Os dados fazem parte de uma tabela que poderá servir como padrão em projetos mobiliários”, comenta.

Fenômeno social

A situação desconfortável dos obesos no mundo atual também é destacada pela psicóloga Helenice Giampietro, cuja dissertação de mestrado investigou os hábitos alimentares de 12 famílias e suas conseqüências na obesidade dos filhos. O trabalho, desenvolvido na Faculdade de História, Direito e Serviço Social, campus de Franca, resultou no livro Em busca da compreensão dos fenômenos revelados na relação família–obesidade.

Helenice argumenta que, hoje, a enorme valorização da magreza e do corpo esbelto e ágil produz uma visão negativa dos obesos, que costumam ser bastante afetados pelos preconceitos. “Em seus relatos, as famílias revelam que carregam nos ombros o peso da responsabilidade pela obesidade dos filhos”, assinala. (Leia quadro nesta página.)

De acordo com a psicóloga, pela complexidade do problema, o tratamento de pessoas obesas, além de interdisciplinar, precisa enfatizar a abordagem do universo da família. “Torna-se relevante o acompanhamento familiar no tratamento da obesidade, através dos programas de educação alimentar na comunidade, seja em escolas, postos de saúde e meios de comunicação”, afirma.

Transtornos também atingem crianças e adolescentes
A última pesquisa do IBGE mostrou também o aumento significativo da obesidade e do sobrepeso entre crianças e adolescentes. Em 30 anos, o número de meninos acima do peso no País subiu de 4% para 18% e, no caso das meninas, de 7% para 15%.

“A obesidade é considerada um transtorno alimentar em que atuam fatores socioeconômicos, genéticos, nutricionais, psicológicos, emocionais, mas fundamentalmente de estilo de vida, que afeta crianças e adolescentes”, diz Tamara Goldberg, docente e pediatra da Faculdade de Medicina, campus de Botucatu. Numa pesquisa com 469 adolescentes atendidos no Ambulatório de Adolescentes do Departamento de Pediatria, Tâmara constatou que 34% estavam com sobrepeso ou obesos.

Em um outro estudo com 107 adolescentes acima do peso, Tamara identificou o baixo consumo de cálcio. “A maioria deles não atingiu as recomendações diárias de ingestão de cálcio e os classificados como obesos e com sobrepeso apresentaram uma maior inadequação”, conclui. O próximo passo da investigação é descobrir se o consumo insuficiente de produtos lácteos e seus derivados influencia diretamente no aumento da obesidade.

Para a médica, a melhor forma de combate e prevenção à obesidade é o acompanhamento rigoroso pelos pais dos hábitos alimentares dos filhos. “A família exerce um papel fundamental na ingestão de gordura e carboidratos e no estímulo para a realização de atividades físicas”, afirma Tamara.

“Por pena, as mães e avós não estabelecem limites na alimentação das crianças, que cada vez mais trocam o lazer e as atividades físicas por comida na frente da TV, do computador e do videogame”, confirma a psicóloga Helenice Brizolla Giampetro, que realizou seu mestrado na Faculdade de História, Direito e Serviço Social (FHDSS), campus de Franca. “Além disso, as crianças estão comendo muito para compensar as ausências de seus familiares e, por isso, sem mudanças no comportamento da família, fica difícil o tratamento para a obesidade.”

Análise de desenhos

Maria Alice de Azevedo, docente aposentada da Faculdade de Ciências (FC), campus de Bauru, analisou os aspectos psíquicos relacionados à obesidade infantil. Por meio da técnica projetiva do DFH (Desenho da Figura Humana) e de Indicadores Emocionais de Koppitz, ela identificou sinais indicativos de transtornos emocionais em crianças de 7 a 12 anos.

A psicóloga comparou os desenhos de 30 crianças obesas com os de 30 crianças com peso normal. “Os desenhos das crianças obesas apresentaram números significativos de determinados indicadores emocionais, como ausência de nariz, olhos e boca, inclinação da figura e assimetria do desenho”, diz. Segundo Maria Alice, a técnica indica apenas que a criança não está bem, mas não esclarece o problema, que deve ser investigado por um especialista.

Prática esportiva

O esporte pode ser um instrumento valioso no combate à obesidade infanto-juvenil. Na Faculdade de Ciências Tecnológicas (FCT), em Presidente Prudente, desde 2001, professores e alunos de Educação Física formam grupos de formação esportiva para crianças e adolescentes com excesso de peso, que praticam judô, atletismo, voleibol, basquetebol e beisebol. “É uma oportunidade para eles tomarem gosto pelas atividades físicas e esportivas”, conta Ismael de Freitas Junior, coordenador do projeto.

Os participantes perderam gordura e fortaleceram a musculatura. Alguns até procuraram escolinhas de formação esportiva em judô e atletismo. Mas foi no aspecto comportamental e psicológico que o grupo obteve maior progresso. “Eles apresentaram melhoria nas relações pessoais tanto na escola quanto em casa, diminuindo o estresse, a depressão e a ansiedade, e melhorando o rendimento escolar”, conclui Freitas Junior.

 

Obesidade afeta 16% dos docentes da UNESP

Um levantamento com 8.616 pessoas em nove campi da UNESP revelou que docentes e servidores apresentam índices de obesidade acima da média nacional – de 9%, segundo o estudo do IBGE anunciado no final de 2006. O trabalho foi realizado nos últimos três anos pelo Programa Movimento Saúde da Pró-reitoria de Extensão Universitária.

Entre os docentes, 58% estão com sobrepeso, sendo que 16% com obesidade. Dos servidores analisados, 36% estavam com o peso acima do ideal e 14%, obesos. Cerca de 4% dos alunos apresentaram obesidade e 17%, sobrepeso. Os dados foram medidos em IMC (Índice de Massa Corpórea).

Em outro estudo, feito no Centro de Metabolismo em Exercício e Nutrição (CeMENutri) com 159 motoristas e 24 supervisores de transporte de Botucatu, os resultados também foram preocupantes: 84% dos participantes superavam o peso normal. Em relação a outro índice, o excesso de gordura corporal, 94% dos motoristas e 90% dos supervisores registraram o problema. Eles passaram por avaliações médica, laboratorial, nutricional, de aptidão física e postural. “Diante dos resultados, recomendamos a mudança do estilo de vida para redução da gordura corporal, além de exercício com pesos para aumento da massa muscular”, afirma José Roberto Burini.

 

Dicas de emagrecimento

• Coma devagar e mastigue bem os alimentos
• Não coma além do necessário: pare assim que se sentir satisfeito
• Não deixe para se alimentar apenas quando estiver com muita fome
• Fracione suas refeições ao longo do dia
• Caso abuse na alimentação num dia, controle-se nos seguintes.
• Faça lanches saudáveis, com salada e pouca gordura
• Evite o excesso de energéticos à base de guaraná em pó e catuaba

 
Fonte: Julio Zanella - Janeiro-Fevereiro/2007 – Ano XX – nº 219 
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